Episódio 2: Cicatrizes

– Mãe, que susto! Eu…

– Aconteceu alguma coisa na faculdade?

– Não. É que eu… eu… eu estou com saudade do meu pai! – disse Lukas para disfarçar o real motivo da sua tristeza.

– Ah, filho! Seu pai era um homem incrível e você deve lembrar dele sempre desta forma. Tenho certeza que ele ficaria honrado ao ver o homem que você se tornou. – Carmem então abraçou o filho – Sei que não é o mesmo abraço, mas espero que ajude a te confortar. Eu sempre estarei aqui para te abraçar quando sentir saudade do seu pai, meu filho.

Lukas cedeu ao abraço da mãe e segurou a emoção. Ele se sentia diferente ao olhar os demais alunos da faculdade, mas não sabia exatamente o motivo. Queria tantas coisas, mas não conseguia dar um passo em direção a coisa alguma e nem mesmo se aproximar das pessoas de forma satisfatória. Não sabia o que falar nem o que dizer e então se escondia atrás de uma timidez tão bem ensaiada que parecia real.

– Vou tomar banho. – ele disse se soltando do abraço materno.

– Estou te esperando para jantar.

Carmem fechou a porta do quarto do filho e respirou fundo para segurar a emoção. Depois foi em direção à cozinha e engoliu o pranto enquanto terminava a salada para o jantar.

Enquanto isso, não muito distante da Vila Mariana, no bairro Bela Vista, região central de São Paulo, André estava na casa de Laura, sua melhor amiga e confidente. Companheiros desde os tempos de ensino fundamental, um sabia tudo da vida do outro.

– Laura, você sabe que minha vida amorosa é e sempre foi um fiasco! E o que é pior: isso está começando a impactar na minha vida profissional. – disse ele se afundado cada vez mais no sofá – Olha esse aplicativo: sempre os mesmos rostos, tudo igual!

– Mas, convenhamos que está assim pois você quer…

– Ah, não começa com esse papo de novo… – ele disse virando a cara.

– Andrew, querido. – ela tinha predileção em chamar o amigo pela versão do nome em inglês – Vou te dizer só mais uma vez o que venho repetindo nos últimos 20 anos…

– Mas, eu tenho 35…

– E eu te falo isso desde quando a gente era adolescente espinhento que ficava assistindo MTV depois da aula e dizia para as nossas mães que não tinha lição da escola para fazer. – disse Laura com uma ponta de ironia e mudando o tom logo depois – Andrew, você precisa sair dessa mania de tudo ser no virtual! É virtual – balada – virtual – balada… Cara, não é assim!

– Mas, onde você acha que eu vou conseguir encontrar alguém?

– Por aí, como todo mundo. Na academia, no shopping, no mercado… Andrew, você é um profissional bem sucedido, inteligente, educado…

André se levanta do sofá e começa a andar em círculos pela sala.

– Não é só isso. Tem algo de errado em mim, tenho quase certeza.

– Andrew, o que aconteceu?

– Você sabe… O de sempre, mas com uma overdose de crueldade!

– Andrew, sem drama. O que aconteceu?

– Leia essa mensagem… – ele entregou o celular para a amiga.

Laura leu em voz baixa a mensagem:

“Oi, André! Não sei muito bem o que estou sentindo. Está tudo muito confuso aqui em casa após a morte do meu primo, minha tia não está bem e preciso ficar ao lado dela nesse momento. Então, cara… Queria terminar a nossa amizade colorida por aqui. Fica bem, tá? Abraço!”

– E você vai ficar abalado por causa de um mané que te mandou uma mensagem dessas?

– Não é só isso. Olha a data da mensagem. Agora, entra no meu Facebook, vai até o perfil dele…

– Tá… Qual o nome?

– Fernando Souza.

– Ok. Entrei e…

– Vai até a data desta mensagem que ele me mandou e veja a postagem em que ele foi marcado.

Laura novamente leu em voz baixa:

“Tô aqui me sentindo um cupido pro Fernando Souza. Sou melhor que Tinder e todos os aplicativos juntos! #AgoraVai #MenosUmSolteiro”

– Hum… Deixa eu ver se entendi. Você estava saindo com esse tal de Fernando Souza, ele terminou com você e foi ficar com outro cara. Normal!

– Laura, não é normal você ter um relacionamento de quase um ano e meio e a pessoa dizer na hora de terminar que tudo não passou de uma amizade colorida. E mais: dizer que a tia precisa dele e, meia hora depois, ser marcado nessa postagem.

Laura respirou fundo e então entendeu que o amigo só precisava de um pouco de carinho e atenção.

– Andrew, eu tenho certeza que ele perdeu um ser humano incrível que é capaz de se doar intensamente para ajudar o outro. E não estou falando isso da boca para fora. Só estou afirmando isso assim categoricamente pois estou falando de você. Você sabe: por você eu não boto a mão no fogo, mas deixou queimar a ponta do dedinho.

Andrew esboçou um sorriso triste e então Laura o abraçou. E eles ficaram assim por algum tempo e então o celular dele tocou. Ela pegou o aparelho, olhou no visor, exitou um pouco e disse:

– Andrew, é o Fernando…

Um comentário em “Episódio 2: Cicatrizes

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