Episódio 1: O primeiro dia

Lukas desceu do metrô e caminhou apressadamente enquanto olhava o relógio para controlar o tempo que ainda tinha. Era o primeiro dia de aula em uma das fases mais importantes da sua vida e a primeira vez que a mãe o deixava sair sozinho, sem qualquer tutela, e precisava cumprir o combinado: sete horas da noite (e nem um minuto a mais) ele deveria estar nas catracas do metrô Santa Cruz, na cidade de São Paulo. Caso contrário, ele talvez teria que conviver por mais alguns longos anos com a mãe em seu pé, sem deixa-lo sequer ir ao mercado sozinho.

– E não vai ser nada legal minha mãe todos os dias na porta da faculdade se despedindo e depois me esperando na saída, como se eu ainda estivesse no jardim da infância! – ele diz para si mesmo.

Aliás, a mãe de Lukas, na sua fúria superprotetora, chegou ao ponto de ficar com o filho na sala nos primeiros dias de aula do ensino fundamental e só não o fez na faculdade pois fora impedida pela direção do curso. Sob protestos, ela só aceitou sair da sala após se certificar de que de fato não teria lugar para ela se sentar.

Ele continuou com seus passos apressados e olhou no relógio: ainda tinha 2 minutos e já estava subindo as escadas rolantes. De longe conseguiu ver a mãe o esperando, ansiosa. Quando se aproximou, ela levantou os braços e gritou:

– Filho, aqui! Aqui!

– Oi, mãe!

– Como foi o primeiro dia? Foi um absurdo a direção não me deixar ficar por causa de uma simples cadeira. Eu poderia ficar olhando, na porta…

– Mãe, não precisa…

– Claro que precisa, meu filho. Eu não posso te deixar sozinho!

Lukas e sua mãe seguiram conversando até o apartamento onde moravam. Ele seguiu para o quarto. Ela foi para a cozinha.

– Vá tomar um banho e depois venha jantar. – disse enquanto o filho caminhava sem olhar para trás em direção ao quarto.

A porta do único cômodo onde Lukas conseguia ter alguma liberdade tinha uma placa: “Meu infinito particular”. Ele havia conhecido a expressão em uma das músicas de sua cantora favorita: Marisa Monte. A mãe nunca entendeu o que aquilo queria dizer: fã de Roberto Carlos, passava o dia ouvindo as faixas do ídolo enquanto fazia artesanato e gerenciava a pequena loja de artesanato que tinha na internet e que ajudava a complementar a renda da pensão do seu falecido marido e de duas casas de aluguel que a família tinha.

Lukas abriu a porta e jogou a mochila em cima da cama. Logo depois fechou a porta e sentou no chão. Sentia um imenso vazio dentro de si, mas ao mesmo tempo sentia uma sensação de paz e tranquilidade. Queria compartilhar com a mãe essa situação, entretanto:

– Isso é coisa do coisa ruim, meu filho! Se afaste disso! – disse a mãe na primeira vez que ele tentou tocar no assunto.

Religiosa, Carmem ia à igreja todas as semanas. Lukas era arrastado, não gostava. Seguia a mãe apenas por um misto de respeito e medo.

Sentado no chão, Lukas pegou o celular. Instalou o aplicativo de relacionamentos virtuais, mas desinstalou logo em seguida. Tinha curiosidade em saber como funcionava, mas, ao mesmo tempo, o medo do julgamento materno se abatia sobre ele e o impedia de qualquer coisa.

O infinito particular de Lukas o deixava tranquilo, mas ele ainda tinha medo de enfrentar aquele misto de sensações que o abatia. Ele se sentia como em uma montanha russa emocional com alguma frequência e naquele momento, sem nenhum motivo aparente, era como se essa montanha russa estivesse descendo em uma velocidade enorme e isso o assustava.

A verdade é que Lukas se sentia só. A companhia da mãe já não era suficiente.

– Suas emoções estão à flor da pele. Você precisa deixar isso sair ou vai adoecer, Lukas! Procure alguém, namore, beije na boca, transe… – dizia uma tia tentando incentivar o sobrinho a ter uma vida social longe das asas maternas.

– Minha mãe me mata só de pensar que eu esteja fazendo isso! – ele sempre dizia e repetiu para si mesmo ali no chão, enquanto deitava e fixava o olhar no teto do quarto.

Colocou uma música baixa no celular e começou a cantarolar: “Amar alguém só pode fazer bem… Não há como fazer mal a ninguém”.

– Mas, quem amar? – se perguntou.

O nome de Lukas virou motivo de chacota na faculdade após a cena de Carmem. Poucas pessoas se aproximavam dele e a maioria olhava e fazia comentários maldosos entre um e outro sorriso mal disfarçado.

– O “bicho” que é filhinho da mamãe! Vou ter que levar esse título pelo menos durante o primeiro semestre da faculdade. E só tive um dia de aula!

Amar alguém não tem explicação… Não há como conter o furacão”, continuou a música, fazendo Lukas deixar escorrer uma lágrima que logo depois chamou outra e ele começou a chorar de maneira involuntária enquanto continuava deitado no chão.

– Quem amar? Quem vai querer um bicho que a mãe não deixa nem ir sozinho para a aula?

Lukas começou a chorar com mais intensidade e então a porta do quarto abriu. Assustado, ele levantou do chão, secou as lágrimas que estavam por sair dos seus olhos mas já era tarde: a mãe percebeu a tristeza do filho e questionou:

– Lukas, o que está acontecendo? Por que você está chorando?

3 comentários em “Episódio 1: O primeiro dia

  1. Vilser Responder

    Controlado desse jeito pela mãe, esse menino vai surtar igual os personagens de “Sharps Objects”… Coitado.

  2. Adelaide Alves de Jesus Responder

    Amor de mãe não tem explicação!!!
    Precisamos nos atentar para não sufocar os filhos e impedi -los de voar, conhecer o mundo!
    O nosso medo não pode ser transferidos para os filhos, eles tem o direito de viver as suas experiências, alegrias e frustações!
    Amei o texto!!!!

  3. Pingback: Labirintos do Coração: Episódio 1 – O primeiro dia | jnts.com.br

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